OpenBim: porque a interoperabilidade decide o sucesso de um projeto
Quando se fala em BIM em Portugal, a conversa centra-se quase sempre nas mesmas coisas: software, dimensão do modelo, nível de detalhe. Há, no entanto, uma camada mais profunda que raramente entra no debate público — e é exatamente essa camada que vai decidir, em 2026 e nos próximos anos, quais os projetos que entregam valor e quais os que acumulam correções de trabalho.
Essa camada chama-se interoperabilidade. E está na base de uma abordagem que está a tornar-se referência internacional: o openBIM.
Na GEOPALM®, ao longo de mais de uma década a trabalhar em projetos públicos e privados, em Portugal e no estrangeiro, vimos repetir-se o mesmo padrão: os projetos que adotam desde o início uma lógica de informação aberta e partilhada são os que correm bem. Os que não adotam, acabam invariavelmente a pagar — em tempo, em custo, ou em ambos.
Este artigo explica o que é o openBIM, o que é o formato IFC, e porque é que ignorar este tema, como ainda acontece em muitos projetos, sai quase sempre mais caro do que enfrentá-lo.
| A REGRA QUE VALE PARA TODO O BIM
Um modelo BIM que não comunica com outros modelos BIM não é um sistema. É um documento isolado. |
1. O que está em jogo
Há cinco anos, a discussão sobre BIM em Portugal centrava-se em adoção. Hoje, centra-se em integração. E há uma razão prática para esta mudança: à medida que cada vez mais escritórios e empresas usam BIM, a fricção entre eles aumenta exponencialmente.
Um arquiteto modela em Revit\Archicad. O engenheiro de estruturas usa Tekla. O engenheiro mecânico trabalha em Rhino. O gestor de ativos quer a informação em ArchiBUS. Cada uma destas ferramentas é poderosa no seu domínio. Mas quando a informação tem de circular entre elas — e tem sempre — a forma como essa transição acontece passa a ser determinante.
Quando a interoperabilidade falha, as consequências são visíveis e mensuráveis:
- Reuniões intermináveis para reconciliar versões e formatos entre equipas.
- Conflitos detetados tarde demais, já em obra, com a estrutura erguida.
- Decisões tomadas com base em modelos desatualizados, porque o ficheiro que circulou já não corresponde à realidade do projeto.
- Correções do trabalho que afetam diretamente cronograma e orçamento.
- Perda da identidade digital do ativo, que deixa de poder ser usada na fase de operação.
É por isto que a interoperabilidade não é um detalhe técnico. É uma decisão estratégica que afeta diretamente prazos, orçamentos e qualidade final.
2. O que é o openBIM
O openBIM é uma abordagem colaborativa ao BIM baseada em formatos abertos, padrões internacionais e interoperabilidade entre ferramentas. Por contraposição ao closedBIM — em que todas as disciplinas têm de usar software da mesma família para conseguirem trocar informação sem perdas — o openBIM parte de um princípio diferente: cada equipa usa a ferramenta que melhor serve o seu trabalho, e a informação flui entre elas através de formatos universais.
Na prática, isto significa que um modelo arquitetónico criado em Archicad pode ser lido, analisado e enriquecido por um engenheiro a trabalhar em Allplan, sem perder dados pelo caminho. Significa que um proprietário pode receber, no fim de uma obra, um modelo as-built que vai conseguir abrir daqui a dez anos — mesmo que as licenças de software que serviram para o criar já não existam.
O openBIM é mantido pela buildingSMART International, uma organização sem fins lucrativos que estabelece os padrões abertos do setor. Está hoje a tornar-se o standard de referência em concursos públicos europeus e em projetos privados de grande escala — porque protege o investimento de quem encomenda.
3. O papel do formato IFC
Se o openBIM é a filosofia, o IFC é a sua expressão técnica mais visível. IFC significa Industry Foundation Classes — um formato de dados aberto, neutro e estandardizado para descrever modelos BIM.
Funciona como uma língua franca da indústria. Cada software BIM pode falar a sua própria língua nativa, mas todos sabem ler e escrever IFC. Quando duas equipas trocam um modelo IFC, estão a trocar muito mais do que geometria — estão a trocar propriedades dos elementos, relações entre componentes, parâmetros, classificações. Toda a estrutura informacional do modelo viaja com ele.
O IFC tem versões em constante evolução, e cada nova versão amplia a capacidade de representar disciplinas e cenários mais complexos: infraestruturas lineares como estradas e caminhos-de-ferro, sistemas hidráulicos, instalações industriais, paisagismo. O IFC deixou de ser um formato apenas para edifícios e passou a ser um formato para o ambiente construído como um todo.
| NA PRÁTICA
Trabalhar com IFC não significa abdicar das ferramentas favoritas de cada equipa. Significa garantir que a informação criada nelas não fica refém delas — nem da licença, nem do fornecedor, nem do tempo. |
4. Os três erros mais comuns na implementação BIM
A teoria da interoperabilidade é elegante. A prática, em quase todos os projetos onde temos intervenção técnica, mostra três erros recorrentes — todos eles caros, todos eles evitáveis.
Erro 1 — Tratar o IFC como exportação final, não como fluxo de trabalho
Muitas equipas só geram ficheiros IFC no fim de uma fase, como entrega contratual. O resultado é que a informação foi sendo criada em silos e o IFC apenas confirma desalinhamentos. A abordagem correta é o oposto: definir o IFC como ponto de troca regular entre disciplinas desde a fase de conceção, e usar essa troca para detetar conflitos enquanto ainda há tempo para os resolver.
Erro 2 — Ignorar a definição prévia do BEP
O BEP — BIM Execution Plan — é o documento que define, no início de um projeto, como o BIM vai funcionar entre as equipas: que softwares vão ser usados, que LOD em cada fase, que formatos de troca, com que frequência, quem é responsável por quê. Sem BEP, cada equipa toma decisões isoladas e a interoperabilidade torna-se uma esperança em vez de um plano. Com BEP bem definido, torna-se previsível e gerível.
Erro 3 — Subestimar o papel do BIM Manager
A interoperabilidade não acontece sozinha. Requer alguém com responsabilidade transversal sobre o fluxo de informação — um gestor BIM ou coordenador BIM que percebe as ferramentas, percebe os padrões abertos e tem mandato para impor disciplina entre as equipas. Quando esta figura existe, os projetos correm. Quando não existe, cada exportação IFC é uma surpresa.
5. O que muda quando há interoperabilidade real
Quando um projeto adota desde o início uma abordagem openBIM, com fluxos IFC bem definidos e gestão BIM ativa, a diferença é visível em todas as fases:
- Na fase de conceção, os conflitos entre disciplinas aparecem cedo, em modelo, e são resolvidos com horas de trabalho — não com semanas de paragem em obra.
- Na fase de construção, o empreiteiro recebe um modelo que pode usar diretamente, em vez de o reconstruir a partir de plantas 2D.
- Na fase de operação, o gestor de ativos recebe um modelo as-built rigoroso que se conecta aos seus sistemas de manutenção e gestão energética — e que vai continuar a fazer sentido daqui a vinte anos.
Na GEOPALM®, este é o princípio que orienta o trabalho em Scan-to-BIM, modelação BIM e levantamentos técnicos. Cada modelo que entregamos é pensado para circular — entre disciplinas, entre fases, entre ferramentas e ao longo do tempo. O laser scanner que usamos no terreno alimenta um modelo IFC que arquitetos, engenheiros, donos de obra e gestores de ativos podem usar nas suas próprias plataformas, sem dependerem de uma única licença ou de um único fornecedor.
Não é um luxo técnico. É uma forma de proteger o investimento de quem encomenda o trabalho.
| O CAMINHO CERTO, EM 4 DECISÕES
1. Adotar openBIM desde o início. Definir a abordagem aberta como princípio antes de qualquer software. 2. Usar IFC como fluxo regular. Trocar informação entre disciplinas em formato aberto, em todas as fases. 3. Definir um BEP claro. Documentar formatos, responsabilidades, LOD e frequência de trocas. 4. Atribuir gestão BIM transversal. Garantir que alguém tem mandato sobre o fluxo de informação entre equipas. |
Conclusão: a interoperabilidade é uma decisão
A interoperabilidade BIM não é uma característica técnica que aparece por acaso. É o resultado de decisões conscientes tomadas no início de um projeto — sobre formatos, sobre padrões, sobre responsabilidades, sobre o tipo de relação que se quer ter com o ativo ao longo do tempo.
Em 2026, esta deixou de ser uma conversa entre especialistas. Tornou-se uma conversa que envolve donos de obra, gestores de ativos, projetistas e construtores. Porque os custos da fragmentação são reais — e os benefícios da integração também.
Na GEOPALM®, trabalhamos todos os dias para que cada modelo entregue ao cliente seja muito mais do que um ficheiro. Seja uma base sólida, aberta e duradoura para todas as decisões que vêm a seguir.
Tem um projeto BIM em fase inicial?
Fale connosco antes do BEP estar fechado. É quando ainda dá para fazer a diferença maior.
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